Seguidores nas redes sociais já são coisa do passado? Como os criadores estão a lidar na era dos algoritmos

Nos últimos anos, ocorreram mudanças fundamentais no ecossistema das redes sociais. O que antes era uma regra simples – quanto mais seguidores, melhor – deixou de ser o principal indicador de sucesso. Amber Venz Box, CEO da plataforma LTK, resumiu esse fenômeno brevemente: «Estamos em 2025, ano em que o algoritmo assumiu controle total, tornando o número de seguidores irrelevante». Para a indústria dos criadores, isso não é uma novidade – Jack Conte, chefe do Patreon, há anos alerta para essa realidade – mas 2025 trouxe uma consciência profunda dessa mudança para todo o setor.

O problema é simples: publicar conteúdo já não garante que será visto pelo seu público. Nas redes sociais, os algoritmos decidem o que mostrar e o que esconder. Essa mudança forçou os criadores a reavaliarem completamente suas estratégias.

Quando o algoritmo assume o controle: o número de seguidores perde importância

A confiança entre criador e audiência tornou-se mais importante do que nunca. Gestores e diretores do setor, com quem a TechCrunch conversou, apontam para uma tendência: os criadores buscam novas formas de construir relações diretas com seu público. Alguns combatem o «lixo de IA» criando conteúdos autênticos, outros contribuem para inundar a rede com uma nova onda de materiais artificiais.

Para empresas como a LTK, que conecta criadores a marcas através de marketing de afiliados (ganho de comissão por produtos recomendados), essa transformação apresenta sinais claros de ameaça. O modelo de negócio só funciona se as pessoas realmente confiam nos criadores. No entanto, estudos encomendados pela Northwestern University trouxeram uma notícia surpreendente: a confiança nos criadores aumentou 21% ano a ano. Para Box, foi um choque positivo. «Se me perguntassem no início do ano se a confiança iria aumentar ou diminuir, eu diria que certamente iria diminuir. As pessoas já entendem como funciona essa indústria», explicou. «Mas a IA fez algo diferente: as pessoas começaram a transferir sua confiança para pessoas reais, que têm experiências de vida autênticas».

Essa observação é confirmada pelos dados sobre postagens nas redes sociais. Mais de 94% dos usuários afirmam que as redes sociais perderam sua natureza social, e mais da metade migra para comunidades menores e mais nichadas.

Exércitos de adolescentes e a cultura de recorte de vídeos como nova estratégia de crescimento

Na luta por visibilidade em um mundo dominado por algoritmos, os criadores descobriram uma tática não ortodoxa: recortar trechos de vídeos. Sean Atkins, CEO da Dhar Mann Studios, descreve o dilema: «Em um mundo impulsionado por algoritmos, onde as pessoas confiam mais em outras pessoas do que em marcas, como fazer marketing em plataformas praticamente impossíveis de controlar?»

A resposta surpreendeu e renovou: contratar exércitos de adolescentes no Discord, que recortam trechos do conteúdo do criador e os publicam em massa nas plataformas algorítmicas. Como explicou Eric Wei, cofundador da Karat Financial (empresa que oferece serviços financeiros para criadores): «Isso já acontece há algum tempo. Muitos dos maiores criadores e streamers do mundo fazem isso – Drake fazia, Kai Cenat na Twitch também – alcançando milhões de visualizações».

A lógica é simples: se o algoritmo decide a distribuição, recortar vídeos faz sentido. Fragmentos curtos podem vir de qualquer conta e se tornar virais sem uma história prévia na plataforma. Os recortadores ganham com base no número de visualizações, e os criadores ganham exposição. «Recortar vídeos é como uma evolução dos memes», afirmou Glenn Ginsburg, presidente da QYOU Media. «É uma corrida entre criadores que tentam distribuir seu conteúdo o mais amplamente possível, tentando dominar a mesma propriedade intelectual».

Reed Duchscher, fundador da agência de talentos Night, que representa Kai Cenat e outras estrelas, conhece bem essa estratégia. Como ex-gerente do MrBeast, desenvolveu um estilo rápido e chamativo que o transformou em um império. No entanto, Duchscher é mais cauteloso do que Wei ao avaliar o potencial dessa tática: «Recortar vídeos é importante porque você precisa inundar a rede com conteúdo. Mas escalar é difícil, pois há poucos recortadores, e com orçamentos altos surgem muitas complicações».

O efeito pode ser temporário. Se a técnica se tornar comum, pode ser vista como spam. Wei admite abertamente: «Todos estão ganhando agora – o criador, porque seu conteúdo chega ao público, o exército de adolescentes, porque ganha dinheiro. Mas, se levar isso ao extremo, só teremos muita porcaria».

Confiança nos criadores cresce, apesar do inundar a rede com lixo de IA

A Merriam-Webster declarou «lixo» como palavra do ano – um sinal de quão grave se tornou o excesso de conteúdo de baixa qualidade na rede. E, no entanto, os dados apontam para uma direção diferente. Segundo gestores da Amber Venz Box, 97% dos diretores de marketing planejam aumentar seus orçamentos para marketing de influenciadores no próximo ano. Isso mostra que, apesar do caos algorítmico, a marca e a reputação do criador continuam sendo ativos valiosos.

O paradoxo é que, quanto mais lixo aparece nas redes sociais, mais as pessoas buscam autenticidade. Criadores com autoridade e credibilidade sólidas se beneficiam desse cenário. Mas isso não torna fácil construir essas relações. Os criadores da LTK esperam que o ceticismo em relação à IA leve as pessoas a canais mais diretos – comunidades pagas de fãs ou plataformas menos dependentes de algoritmos, como Substack, LinkedIn ou Strava.

O futuro pertence aos criadores de nicho, e não aos megainfluenciadores

Duchscher prevê uma mudança significativa: o futuro não pertence aos megainfluenciadores como MrBeast, PewDiePie ou Charli D’Amelio. Em vez disso, o sucesso será dos criadores mais nichados, como Alix Earle ou Outdoor Boys – têm milhões de seguidores, mas não são omnipresentes na cultura de massa.

«Os algoritmos estão tão avançados hoje que nos entregam exatamente o tipo de conteúdo que queremos. Para o criador, é muito mais difícil se destacar em cada nicho de público», afirma Duchscher.

Atkins vai além, argumentando que a economia dos criadores vai muito além do entretenimento. «Costuma-se pensar nisso como entretenimento, mas isso é um erro. Pensar nos criadores é como pensar na internet ou na IA – isso vai impactar tudo». Ele cita o exemplo do Epic Gardening – canal do YouTube que virou um negócio real. «Epic Gardening comprou a terceira maior empresa de sementes dos EUA. O criador de conteúdo agora é proprietário da terceira maior empresa de sementes do país».

Isso mostra que a economia dos criadores nas redes sociais está passando por uma transformação. Não se trata mais do número de seguidores, mas da qualidade das relações e da autenticidade. O setor, acostumado a se adaptar rapidamente às mudanças algorítmicas de forma barata, mostra-se resistente e em evolução. Como resume Atkins: «Os criadores influenciam literalmente tudo. Aposto que existe um criador que é especialista em misturar cimento para arranha-céus».

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