Mais de quatro anos passaram desde que John McAfee, o excêntrico pioneiro do antivírus e defensor das criptomoedas, morreu numa cela de prisão em Barcelona. Ainda assim, a sua viúva, Janice McAfee, permanece presa entre o luto e a incerteza, incapaz de seguir em frente porque questões cruciais sobre a sua morte continuam sem resposta. A sua história não é apenas uma tragédia pessoal — revela questões mais profundas sobre justiça, riqueza e o preço da resistência contra forças poderosas.
Sobrevivendo em Espanha: De Riqueza a Trabalhos Eventuais
Janice McAfee passou os anos desde a morte do marido numa localização não revelada em Espanha, longe dos holofotes americanos que outrora iluminaram a vida controversa de John. O que torna a sua situação particularmente comovente é o contraste gritante entre o seu antigo estatuto e a sua realidade atual. Sobrevive fazendo qualquer trabalho que consiga encontrar — trabalhos ocasionais aqui e ali — enquanto a riqueza outrora colossal do marido evaporou-se completamente.
“Eu sustentava-me fazendo trabalhos ocasionais aqui e ali. Isso não era importante. O que era importante era o que eu podia fazer pelo John,” explicou numa entrevista exclusiva. Esta declaração resume toda a sua filosofia durante este período: em vez de lutar por segurança financeira ou conforto pessoal, ela canalizou os seus recursos restantes para entender o que aconteceu ao seu marido.
Ela vive com medo de regressar aos Estados Unidos, incerta sobre o seu estatuto legal e o que a possa esperar. Manter-se anónima em Espanha tornou-se a sua opção mais segura, pelo menos por agora.
A Fortuna de 100 Milhões de Dólares que Desapareceu
A trajetória da riqueza de John McAfee conta a sua própria história de advertência. Em 1994, quando se afastou da empresa de antivírus que levava o seu nome e vendeu as suas ações, possuía mais de 100 milhões de dólares. No entanto, até à sua morte em 2021, o seu património líquido estimado tinha despencado para apenas 4 milhões de dólares, segundo a Celebrity Net Worth — uma queda impressionante que acelerou nos seus últimos anos.
O desaparecimento da sua fortuna resultou de múltiplas catástrofes. Em 2019, McAfee afirmou publicamente que não tinha dinheiro e que não podia satisfazer um julgamento de 25 milhões de dólares de uma ação por morte indevida. No ano seguinte, as autoridades prenderam-no sob acusações de evasão fiscal, alegando que ele e os seus associados tinham ganho 11 milhões de dólares através de esquemas de promoção de criptomoedas que não foram reportados ao IRS.
Segundo Janice, o marido não deixou testamento nem acumulou património. Quaisquer ativos financeiros que pudesse ter deixado tornaram-se inacessíveis devido a decisões judiciais pendentes contra ele nos tribunais dos EUA. Isto significava que não havia herança, nem rede de segurança, e, em última análise, nenhum recurso para procurar as respostas que ela desesperadamente procurava sobre os últimos momentos dele.
Havia rumores de tesouros escondidos, documentos secretos e esconderijos de criptomoedas dispersos pelo mundo digital. Mas John deliberadamente manteve Janice às escuras sobre esses supostos cofres, uma medida de proteção pensada para protegê-la de perigos caso inimigos poderosos decidissem usá-la como alavanca.
Questões Sem Resposta: O Mistério da Sua Morte
Apesar de uma decisão do tribunal catalão em setembro de 2023 afirmar que John McAfee morreu por suicídio, Janice permanece inconformada. O encerramento oficial do caso só aumentou a sua frustração, pois as autoridades espanholas têm recusado consistentemente divulgar os resultados da autópsia — uma recusa que ela não consegue compreender.
“Por mais de dois anos, não só tive que lidar com a tragédia da morte do John, como também foi difícil seguir em frente porque as autoridades recusaram-se a divulgar os resultados da autópsia. Tentei, tentei, mas não me deixam ver,” afirmou.
As circunstâncias que rodearam a sua morte levantam questões inquietantes que a atormentam. Os responsáveis pela prisão alegaram que o encontraram vivo na cela, com uma ligadura ao redor do pescoço. O pulso dele era fraco, mas presente; ele ainda respirava. No entanto, a resposta médica que se seguiu pareceu-lhe fundamentalmente incorreta.
Como alguém treinada em RCP e cuidados de enfermagem, Janice conhece o protocolo inicial ao encontrar alguém com uma obstrução ao redor do pescoço: desobstruir as vias respiratórias. Mas o vídeo da prisão mostrou que a equipa tentou reanimar John sem primeiro remover a ligadura. “Se alguém tem algo ao redor do pescoço, essa é a última coisa que se deve fazer. A primeira é desobstruir, mas pelo vídeo da prisão, isso não aconteceu,” observou, com a voz carregada de confusão e suspeita.
Uma autópsia independente poderia potencialmente esclarecer algumas dessas questões. No entanto, custaria 30.000 euros — dinheiro que ela não possui. Ela permanece, na essência, financeiramente impedida de descobrir a verdade sobre a morte do marido.
Dois Anos Sem Respostas: Medo pela Segurança e Segredos Escondidos
Nos momentos imediatamente após a morte de John, Janice viveu num medo constante. Temia tornar-se uma vítima colateral, que inimigos que procuravam John poderiam agora direcionar-se a ela. John tinha-lhe repetidamente assegurado que as autoridades o perseguiam, não ela, mas isso oferecia pouco conforto.
Ele tinha divulgado publicamente 31 terabytes de informações — dados que alegava possuir, mas que nunca partilhou com ela, deixando-a na ignorância total sobre o seu conteúdo ou mesmo se realmente existiam. O mistério do que ele sabia, do que possuía e de quem poderia estar desesperado por encontrá-lo criou uma atmosfera de ansiedade perpétua.
Com o tempo, esse terror diminuiu, embora não tenha desaparecido completamente. Agora ela pensa que, como não possui conhecimento dos segredos ou ativos alegados de John, ela não representa uma ameaça para quem procura essas informações. De uma forma perversa, a sua ignorância tornou-se a sua proteção.
Ainda assim, ela não consegue avançar porque, na sua mente, avançar requer entender o que aconteceu. A falta de encerramento — a incapacidade de ver o corpo do marido, de ver os resultados da autópsia, de compreender a resposta médica à sua morte — mantém-na emocionalmente suspensa no momento da sua perda.
O Documentário da Netflix e o que se Perdeu na Tradução
Em 2023, a Netflix lançou “Running with the Devil: The Wild World of John McAfee”, um documentário que tentou captar o caos e a complexidade dos últimos anos de John. Janice assistiu enquanto ela e o marido eram retratados como fugitivos, como se a decisão de fugir fosse a narrativa central da sua vida em conjunto.
Ela discorda dessa abordagem. Para ela, o documentário, na sua opinião, revela mais os impulsos sensacionalistas dos realizadores do que a verdadeira história de John McAfee. Transforma uma narrativa humana complexa em entretenimento, reduzindo questões profundas a pontos de enredo feitos para chocar e cativar o público.
“As pessoas esquecem-se muito rápido, e eu entendo porquê, porque o mundo se move tão rápido hoje em dia. Só espero que ele seja lembrado corretamente, isso é o mínimo que ele merece,” afirmou, expressando a sua frustração com o fato de que as narrativas mediáticas muitas vezes obscurecem, em vez de iluminar, a verdade.
Ela acredita que o documentário falhou em explorar as perguntas reais: Por que motivo John estava disposto a tornar-se fugitivo? O que o levou a extremos? Por que ela permaneceu ao seu lado? Essas questões, ela acha, mereciam uma análise mais séria do que o filme proporcionou.
Um Último Desejo: Cremação e Seguir em Frente
Através de todo o sofrimento e incerteza, Janice mantém-se focada num objetivo concreto: honrar o último desejo do marido. John tinha pedido que, se morresse, o seu corpo fosse cremado. Esse pedido ainda não foi cumprido.
Os seus restos mortais continuam na morgue da prisão onde morreu. Janice não consegue compreender por que as autoridades espanholas continuam a reter o corpo anos após a sua morte. Não há necessidade de investigação em curso, nem razão legal para manter a custódia do corpo. Ainda assim, a inércia burocrática, a indiferença institucional ou talvez algo mais intencional mantêm o corpo em limbo.
“O corpo dele ainda está na morgue da prisão onde morreu. Não sei por que decidiram manter o corpo dele. Eles não precisam dele,” afirmou, com evidente frustração. Há dois anos, ela tinha reunido recursos suficientes para realizar uma autópsia independente e cumprir os seus últimos desejos. Há um ano, essa possibilidade ainda existia. Agora, ambos escaparam do seu alcance.
A cremação representa mais do que um rito funerário na mente de Janice. Simboliza respeito pela autonomia de John, um ato final de homenagem aos seus desejos mesmo na morte. Também representa encerramento — a capacidade de seguir em frente emocionalmente a partir do ponto fixo dos seus restos físicos mantidos em cativeiro institucional.
Uma Esperança de Justiça e Compreensão
Janice McAfee não busca vingança ou justiça criminal no sentido tradicional. Não tem ilusões de recuperar a riqueza perdida ou reverter decisões governamentais. O que ela quer é simplesmente entender o que aconteceu ao homem que amava.
Uma autópsia independente forneceria fatos médicos. Revisar os resultados dar-lhe-ia informações concretas sobre as circunstâncias da sua morte. Cremar o corpo de acordo com os seus desejos permitir-lhe-ia realizar pelo menos um ato final de devoção e respeito.
Ao conceder esta entrevista, ela espera alcançar pessoas que possam interessar-se por estas questões, que possam compreender que a sua luta não é uma queixa pessoal, mas uma questão de dignidade humana fundamental. Todos, ela acredita, merecem saber como os seus entes queridos morreram. Todos merecem respostas.
A história de John McAfee, vista pelos olhos de Janice, não é principalmente uma narrativa de riqueza, fugitivos ou intriga de criptomoedas. É uma história sobre os custos invisíveis de viver em resistência, o dano colateral infligido àqueles mais próximos do resistente, e a dolorosa realidade de que, mesmo na morte, perguntas podem permanecer teimosamente sem resposta. A persistência silenciosa de Janice — a trabalhar em trabalhos ocasionais num país estrangeiro para financiar uma busca pela verdade — é um testemunho do poder do amor e da necessidade humana de encerramento, por mais evasivo que possa parecer.
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A História de John McAfee: A Luta de uma Viúva pela Verdade e Encerramento
Mais de quatro anos passaram desde que John McAfee, o excêntrico pioneiro do antivírus e defensor das criptomoedas, morreu numa cela de prisão em Barcelona. Ainda assim, a sua viúva, Janice McAfee, permanece presa entre o luto e a incerteza, incapaz de seguir em frente porque questões cruciais sobre a sua morte continuam sem resposta. A sua história não é apenas uma tragédia pessoal — revela questões mais profundas sobre justiça, riqueza e o preço da resistência contra forças poderosas.
Sobrevivendo em Espanha: De Riqueza a Trabalhos Eventuais
Janice McAfee passou os anos desde a morte do marido numa localização não revelada em Espanha, longe dos holofotes americanos que outrora iluminaram a vida controversa de John. O que torna a sua situação particularmente comovente é o contraste gritante entre o seu antigo estatuto e a sua realidade atual. Sobrevive fazendo qualquer trabalho que consiga encontrar — trabalhos ocasionais aqui e ali — enquanto a riqueza outrora colossal do marido evaporou-se completamente.
“Eu sustentava-me fazendo trabalhos ocasionais aqui e ali. Isso não era importante. O que era importante era o que eu podia fazer pelo John,” explicou numa entrevista exclusiva. Esta declaração resume toda a sua filosofia durante este período: em vez de lutar por segurança financeira ou conforto pessoal, ela canalizou os seus recursos restantes para entender o que aconteceu ao seu marido.
Ela vive com medo de regressar aos Estados Unidos, incerta sobre o seu estatuto legal e o que a possa esperar. Manter-se anónima em Espanha tornou-se a sua opção mais segura, pelo menos por agora.
A Fortuna de 100 Milhões de Dólares que Desapareceu
A trajetória da riqueza de John McAfee conta a sua própria história de advertência. Em 1994, quando se afastou da empresa de antivírus que levava o seu nome e vendeu as suas ações, possuía mais de 100 milhões de dólares. No entanto, até à sua morte em 2021, o seu património líquido estimado tinha despencado para apenas 4 milhões de dólares, segundo a Celebrity Net Worth — uma queda impressionante que acelerou nos seus últimos anos.
O desaparecimento da sua fortuna resultou de múltiplas catástrofes. Em 2019, McAfee afirmou publicamente que não tinha dinheiro e que não podia satisfazer um julgamento de 25 milhões de dólares de uma ação por morte indevida. No ano seguinte, as autoridades prenderam-no sob acusações de evasão fiscal, alegando que ele e os seus associados tinham ganho 11 milhões de dólares através de esquemas de promoção de criptomoedas que não foram reportados ao IRS.
Segundo Janice, o marido não deixou testamento nem acumulou património. Quaisquer ativos financeiros que pudesse ter deixado tornaram-se inacessíveis devido a decisões judiciais pendentes contra ele nos tribunais dos EUA. Isto significava que não havia herança, nem rede de segurança, e, em última análise, nenhum recurso para procurar as respostas que ela desesperadamente procurava sobre os últimos momentos dele.
Havia rumores de tesouros escondidos, documentos secretos e esconderijos de criptomoedas dispersos pelo mundo digital. Mas John deliberadamente manteve Janice às escuras sobre esses supostos cofres, uma medida de proteção pensada para protegê-la de perigos caso inimigos poderosos decidissem usá-la como alavanca.
Questões Sem Resposta: O Mistério da Sua Morte
Apesar de uma decisão do tribunal catalão em setembro de 2023 afirmar que John McAfee morreu por suicídio, Janice permanece inconformada. O encerramento oficial do caso só aumentou a sua frustração, pois as autoridades espanholas têm recusado consistentemente divulgar os resultados da autópsia — uma recusa que ela não consegue compreender.
“Por mais de dois anos, não só tive que lidar com a tragédia da morte do John, como também foi difícil seguir em frente porque as autoridades recusaram-se a divulgar os resultados da autópsia. Tentei, tentei, mas não me deixam ver,” afirmou.
As circunstâncias que rodearam a sua morte levantam questões inquietantes que a atormentam. Os responsáveis pela prisão alegaram que o encontraram vivo na cela, com uma ligadura ao redor do pescoço. O pulso dele era fraco, mas presente; ele ainda respirava. No entanto, a resposta médica que se seguiu pareceu-lhe fundamentalmente incorreta.
Como alguém treinada em RCP e cuidados de enfermagem, Janice conhece o protocolo inicial ao encontrar alguém com uma obstrução ao redor do pescoço: desobstruir as vias respiratórias. Mas o vídeo da prisão mostrou que a equipa tentou reanimar John sem primeiro remover a ligadura. “Se alguém tem algo ao redor do pescoço, essa é a última coisa que se deve fazer. A primeira é desobstruir, mas pelo vídeo da prisão, isso não aconteceu,” observou, com a voz carregada de confusão e suspeita.
Uma autópsia independente poderia potencialmente esclarecer algumas dessas questões. No entanto, custaria 30.000 euros — dinheiro que ela não possui. Ela permanece, na essência, financeiramente impedida de descobrir a verdade sobre a morte do marido.
Dois Anos Sem Respostas: Medo pela Segurança e Segredos Escondidos
Nos momentos imediatamente após a morte de John, Janice viveu num medo constante. Temia tornar-se uma vítima colateral, que inimigos que procuravam John poderiam agora direcionar-se a ela. John tinha-lhe repetidamente assegurado que as autoridades o perseguiam, não ela, mas isso oferecia pouco conforto.
Ele tinha divulgado publicamente 31 terabytes de informações — dados que alegava possuir, mas que nunca partilhou com ela, deixando-a na ignorância total sobre o seu conteúdo ou mesmo se realmente existiam. O mistério do que ele sabia, do que possuía e de quem poderia estar desesperado por encontrá-lo criou uma atmosfera de ansiedade perpétua.
Com o tempo, esse terror diminuiu, embora não tenha desaparecido completamente. Agora ela pensa que, como não possui conhecimento dos segredos ou ativos alegados de John, ela não representa uma ameaça para quem procura essas informações. De uma forma perversa, a sua ignorância tornou-se a sua proteção.
Ainda assim, ela não consegue avançar porque, na sua mente, avançar requer entender o que aconteceu. A falta de encerramento — a incapacidade de ver o corpo do marido, de ver os resultados da autópsia, de compreender a resposta médica à sua morte — mantém-na emocionalmente suspensa no momento da sua perda.
O Documentário da Netflix e o que se Perdeu na Tradução
Em 2023, a Netflix lançou “Running with the Devil: The Wild World of John McAfee”, um documentário que tentou captar o caos e a complexidade dos últimos anos de John. Janice assistiu enquanto ela e o marido eram retratados como fugitivos, como se a decisão de fugir fosse a narrativa central da sua vida em conjunto.
Ela discorda dessa abordagem. Para ela, o documentário, na sua opinião, revela mais os impulsos sensacionalistas dos realizadores do que a verdadeira história de John McAfee. Transforma uma narrativa humana complexa em entretenimento, reduzindo questões profundas a pontos de enredo feitos para chocar e cativar o público.
“As pessoas esquecem-se muito rápido, e eu entendo porquê, porque o mundo se move tão rápido hoje em dia. Só espero que ele seja lembrado corretamente, isso é o mínimo que ele merece,” afirmou, expressando a sua frustração com o fato de que as narrativas mediáticas muitas vezes obscurecem, em vez de iluminar, a verdade.
Ela acredita que o documentário falhou em explorar as perguntas reais: Por que motivo John estava disposto a tornar-se fugitivo? O que o levou a extremos? Por que ela permaneceu ao seu lado? Essas questões, ela acha, mereciam uma análise mais séria do que o filme proporcionou.
Um Último Desejo: Cremação e Seguir em Frente
Através de todo o sofrimento e incerteza, Janice mantém-se focada num objetivo concreto: honrar o último desejo do marido. John tinha pedido que, se morresse, o seu corpo fosse cremado. Esse pedido ainda não foi cumprido.
Os seus restos mortais continuam na morgue da prisão onde morreu. Janice não consegue compreender por que as autoridades espanholas continuam a reter o corpo anos após a sua morte. Não há necessidade de investigação em curso, nem razão legal para manter a custódia do corpo. Ainda assim, a inércia burocrática, a indiferença institucional ou talvez algo mais intencional mantêm o corpo em limbo.
“O corpo dele ainda está na morgue da prisão onde morreu. Não sei por que decidiram manter o corpo dele. Eles não precisam dele,” afirmou, com evidente frustração. Há dois anos, ela tinha reunido recursos suficientes para realizar uma autópsia independente e cumprir os seus últimos desejos. Há um ano, essa possibilidade ainda existia. Agora, ambos escaparam do seu alcance.
A cremação representa mais do que um rito funerário na mente de Janice. Simboliza respeito pela autonomia de John, um ato final de homenagem aos seus desejos mesmo na morte. Também representa encerramento — a capacidade de seguir em frente emocionalmente a partir do ponto fixo dos seus restos físicos mantidos em cativeiro institucional.
Uma Esperança de Justiça e Compreensão
Janice McAfee não busca vingança ou justiça criminal no sentido tradicional. Não tem ilusões de recuperar a riqueza perdida ou reverter decisões governamentais. O que ela quer é simplesmente entender o que aconteceu ao homem que amava.
Uma autópsia independente forneceria fatos médicos. Revisar os resultados dar-lhe-ia informações concretas sobre as circunstâncias da sua morte. Cremar o corpo de acordo com os seus desejos permitir-lhe-ia realizar pelo menos um ato final de devoção e respeito.
Ao conceder esta entrevista, ela espera alcançar pessoas que possam interessar-se por estas questões, que possam compreender que a sua luta não é uma queixa pessoal, mas uma questão de dignidade humana fundamental. Todos, ela acredita, merecem saber como os seus entes queridos morreram. Todos merecem respostas.
A história de John McAfee, vista pelos olhos de Janice, não é principalmente uma narrativa de riqueza, fugitivos ou intriga de criptomoedas. É uma história sobre os custos invisíveis de viver em resistência, o dano colateral infligido àqueles mais próximos do resistente, e a dolorosa realidade de que, mesmo na morte, perguntas podem permanecer teimosamente sem resposta. A persistência silenciosa de Janice — a trabalhar em trabalhos ocasionais num país estrangeiro para financiar uma busca pela verdade — é um testemunho do poder do amor e da necessidade humana de encerramento, por mais evasivo que possa parecer.