Como dominar a fórmula do TIR nos seus investimentos de renda fixa

Alguma vez comparaste dois títulos de dívida e não sabias qual escolher apenas olhando para o cupão? Aqui é onde entra em jogo a TIR, uma métrica que muitos investidores ignoram mas que pode mudar completamente a tua decisão de investimento. Deixa-me explicar-te porquê e como usá-la.

A realidade por trás do cupão: por que a percentagem que vês não é toda a história

Quando observas um título de dívida que paga um 8% de cupão, muitas pessoas assumem automaticamente que esse é o seu rendimento real. Mas há um segredo: o preço a que o compras determinará se realmente obterás esse retorno ou algo muito diferente.

Imagina que compras um título por 105 euros quando o seu valor nominal é 100. Embora te pague um cupão atrativo todos os anos, ao vencimento apenas recuperarás 100 euros. Essa diferença de 5 euros representa uma perda que erosionará o teu ganho real. Aqui é onde a fórmula da TIR (Taxa Interna de Retorno) se torna na tua ferramenta indispensável.

Entendendo o que é a TIR na prática

A TIR é a taxa de juro que captura a rentabilidade total do teu investimento em renda fixa, considerando não só os cupons periódicos mas também o ganho ou perda que terás quando o título chegar ao vencimento.

Um título comum funciona assim: investes no seu valor nominal, recebes pagamentos de juros (cupons) regularmente, e ao final recuperas o nominal mais o último cupão. Mas no mercado secundário, esse título pode cotar-se a diferentes preços:

  • Abaixo do par: compras a 95 euros um título de valor nominal 100. Terás lucro por reversão.
  • À par: compras a 100 euros um título de valor nominal 100. Sem lucro nem perda por preço.
  • Acima do par: compras a 108 euros um título de valor nominal 100. Terás perda por reversão.

A TIR reflete o impacto líquido de todos esses fatores no teu desempenho final.

A fórmula da TIR explicada sem tecnicismos desnecessários

Embora o cálculo da fórmula da TIR exija resolver uma equação complexa onde igualamos o preço atual do título com a soma de todos os seus fluxos de caixa futuros (cupons e nominal) descontados a uma taxa desconhecida, não precisas fazer isso manualmente. Existem calculadoras online especializadas que simplificam o processo.

O importante é que percebas que introduzes três variáveis:

  • O preço atual do título (P)
  • O cupão que recebes ©
  • O tempo até ao vencimento (n)

E obténs a tua TIR.

Caso real: como a TIR revela o que o cupão oculta

Temos um título que cotiza a 94,5 euros, paga um 6% anual e vence em 4 anos. Aplicando a fórmula da TIR, o resultado é 7,62%. Nota: a TIR é mais alta que o cupão porque compraste abaixo do par.

Agora, pega no mesmo título mas a 107,5 euros. A TIR cai para 3,93%, muito abaixo do cupão de 6%. Porquê? Porque pagarás um sobrepreço que depois não recuperarás ao vencimento.

Este é o truque: dois títulos com o mesmo cupão podem oferecer-te rentabilidades completamente diferentes dependendo do preço de compra. A fórmula da TIR revela a verdade que o cupão tenta esconder.

Diferenciando TIR de outros tipos de taxas que encontras

É fácil confundir a TIR com outras taxas que vês no mercado. O TIN (Tipo de Juros Nominal) é simplesmente a percentagem que pactuas, sem custos adicionais. O TAE (Taxa Anual Equivalente) inclui despesas e comissões, por isso numa hipoteca vês um TIN de 2% mas um TAE de 3,26%.

A TIR, por outro lado, é específica para renda fixa e captura a rentabilidade real considerando o preço de compra atual, os cupons e a reversão ao nominal.

Quais fatores movem a tua TIR sem que faças cálculos

Se o cupão sobe, a TIR sobe. Se o cupão desce, a TIR desce. É direto.

Se compras abaixo do valor nominal, a TIR melhora. Se compras acima, deteriora-se. Também é direto.

Em títulos mais complexos (convertíveis, ligados à inflação, etc.), a TIR adicionalmente depende de variáveis secundárias como a ação subjacente ou a evolução dos preços, mas o conceito fundamental permanece: tudo acaba por refletir-se nessa taxa.

Porquê esta métrica é imprescindível para escolher títulos

Quando tens dois títulos à tua frente, a TIR permite-te compará-los em condições iguais. Um título A com cupão de 8% e TIR de 3,67% renderá menos que um título B com cupão de 5% e TIR de 4,22%. Sem a fórmula da TIR, escolherias o primeiro e cometerias um erro.

Isto acontece porque o preço pago pelo título A já incorpora uma sobrevalorização. Recuperarás menos do que investiste em termos reais.

O aviso final sobre títulos com TIR anormalmente alta

Quando vês um título com TIR de 19%, como aconteceu com títulos gregos durante a crise de 2010, cuidado. Essa taxa extraordinária não significa que seja uma joia escondida. Geralmente reflete risco de incumprimento muito elevado. O mercado valoriza esse risco exigindo uma rentabilidade muito maior.

A TIR ajuda-te a tomar decisões, mas nunca te esqueças de avaliar a qualidade de crédito do emissor. Uma TIR atrativa num título de emissor em risco pode custar muito caro se a empresa não pagar.

Conclusão: domina a TIR e domina os teus investimentos

A fórmula da TIR é a diferença entre investir às cegas e tomar decisões informadas em renda fixa. Sempre que comparares títulos, usa-a. Não importa se o fazes manualmente ou com uma calculadora: o que importa é que percebas que o cupão é apenas parte da história.

A tua verdadeira rentabilidade depende de quanto pagues hoje, quanto recebas em pagamentos periódicos e quanto recuperes ao vencimento. A TIR unifica tudo isso num único número em que podes confiar.

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